sábado, 1 de outubro de 2011

... abandono ...




Ausente o encanto antes cultivado
Percebo o mecanismo indiferente
Que teima em resgatar sem confiança
A essência do delito então sagrado
Meu coração não quer deixar
Meu corpo descansar
E teu desejo inverso é velho amigo
Já que o tenho sempre a meu lado
Hoje então aceitas pelo nome
O que perfeito entregas mas é tarde
Só daria certo aos dois que tentam
Se ainda embriagado pela fome
Exatos teu perdão e tua idade
O indulto a ti tomasse como bênção
Não esconda tristeza de mim
Todos se afastam quando o mundo está errado
Quando o que temos é um catálogo de erros
Quando precisamos de carinho
Força e cuidado
Este é o livro das flores
Este é o livro do destino
Este é o livro de nossos dias
Este é o dia de nossos amores

(O livro dos dias - Legião Urbana)

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Amoras


Estava um domingo repleto de sol... e, consequentemente o calor acompanhava aquela claridade toda; estava na casa de uma família amiga... almoço de domingo, crianças correndo, conversa alta, dia transcorrendo de forma tranquila, amena.

E lá estava ela: a amoreira. Meus olhos foram atraídas instantaneamente para aquele fenômeno: amoreira repleta de frutos que pendiam de seus galhos às dezenas, em várias tonalidades de cores: verdes, vermelhos, mesclados (entre verde, vermelho e negro) e as que seriam, com certeza, minhas vítimas, as que se apresentavam gordas, macias, negras, suculentas.

Não era uma árvore imensa, imponente, pelo contrário, pequena, frágil, galhos finos... mas repletos de frutos. Não hesitei um segundo: os galhos mais baixos foram os primeiros, os olhos varrendo a região à procura de mais e mais, o doce sabor invadindo meu paladar... e trazendo à tona lembranças que sequer sabia ainda eram vivas dentro de mim.

Recordei-me de uma infância há muito esquecida em meu afã de ser gente grande: éramos um grupo de dez, talvez quinze primos, nunca soube. E, em nossos encontros sempre uma árvore por perto, uma mangueira, uma laranjeira, e outras inúmeras árvores frutíferas na casa de meu avô que sempre convidavam à escaladas. E entre elas, uma amoreira. Grande. Frutos doces. Raros (quem chegasse primeiro sempre os conseguia, deixando apenas os azedos para trás). "Você gosta de amora? Vou falar pro seu pai que você namora..." Sempre havia alguém que caía na pegadinha, intencionalmente ou não. 

E ali estava eu, criança eterna. Amoreira solidária. Infância que nunca acaba.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Descartável, mas contagiante

Sabe aquelas músicas que grudam e que você fica, dia e noite com elas na cabeça, tentando cantarolar uma estrofe que não sabe ou em uma língua que não entende? Não quero aqui tentar entender o porquê disso, mas apresentar algo do gênero.

Wanessa. É, a Camargo. Agora só Wanessa. A mesma de quem nunca fui fã. Mas agora me calo. Simplesmente a deixo passar com sua obra diante de mim. E dos meus. Depois de investidas em sertanejo, música romântica, em um pop nacional, eis que chega Wanessa com uma música pop à la Lady Gaga e companhia. É, a menina mostra a que veio. Não me entendam mal. Não falo em qualidade de letra, em refinamento musical, em composições estupendas... falo de música comercial, descartável sim (dentro de algum tempo ninguém as ouvirá em rádio e afins), mas que cumpre seu papel. É contagiante. É envolvente. É uma festa pronta. Do início ao fim.

O álbum é todo em inglês e não fica devendo nada às grandes divas do pop atual.

Abaixo, vídeo para provar que não mentimos quando afirmamos isso. Para ouvir e dançar.


segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Indicado da semana: Filme Onde está a felicidade?

O cinema nacional tem percorrido um notório caminho de ascenção, diríamos, desde Central do Brasil. Relegado a segundo plano por muitos anos tem-se mostrado a que veio nos últimos anos. Só para citar alguns nomes: Olga, Central do Brasil, O auto da Compadecida, Os normais, Como esquecer, Tropa de Elite, As melhores coisas do mundo, De pernas pro ar, O cheiro do ralo,... títulos que exemplificam em pequena medida, a grandiosidade do que hoje temos como cinema nacional, do drama à comédia, do campeão de bilheteria ao que atingiu pequeno público (mas nem por isso de menor qualidade).

E é neste cenário que a co-produção entre Brasil e Espanha chega ao grande público. Onde está a felicidade? parte do filão " busca por felicidade" e do desejo de encontrá-la em algum lugar específico, em território marcado. E surpreende. Pelo roteiro simples, desprovido de grandes diálogos, mas direto. Pela interpretação. Pela fotografia. Pela leveza. Pela abordagem simples e, ao mesmo tempo, complexa da psicologia brasileira e espanhola. O texto consegue extrair a essência de uma e outra nacionalidade, em linhas gerais, sem cair no estereótipo ou clichê.

O filme aborda fé em uma sociedade pós moderna, com todas as características que lhe é própria. Fala de amor onde o consumo dita as regras. Aponta para honestidade como caminho que de fato vale a pena. faz rir sem apelação. Faz bem para a alma.

Salas quase vazias, é bem verdade. Poucas salas de exibição. Poucos cinemas a exibirem o filme. É o público brasileiro aprendendo aos poucos a ter gosto pelo que é nosso. É a arte nacional buscando espaço em um mar capitalista movido pelo que poderíamos aqui chamar de ardinheiro: a arte que, se não produz dinheiro, deixa de ser.

Se vale a pena conferir? Programa imperdível aos amantes do bom cinema nacional.



terça-feira, 16 de agosto de 2011

Café & Arte agora tem sua página de vendas

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Não deixe de conferir.



Recomendado: O retrato de Dorian Gray - o filme

Com dois anos de atraso, finalmente estréia no Brasil O retrato de Dorian Gray, adaptação da famosa obra de Oscar Wilde (seu único romance, é verdade).

Entre elogios  e críticas, o filme segue tímido em poucas salas de cinema. Em alguns lugares, o rótulo de cult, coloca-o ainda mais longe do grande público que, convenhamos, está louco para ver o final da saga crepúsculo!

Embora o filme se perca em alguns momentos, em outros se sobressai por si mesmo. Oscar Wilde preenche com uma dramaticidade única suas personagens e seu texto ímpar (ali está a marca do que foi sua vida, suas histórias. Recomendo a leitura de The Profundis, carta autobiográfica, para um contato maior com o que foi sua existência). A adaptação cinematográfica tenta captar em algumas cenas esta intensidade em cores e movimentos.

Na obra de Wilde temos visível, quase gritante, uma denúncia aos costumes sociais, morais de uma época em decadência (ou, melhor, da existência humana sempre decadente). Não há o bem ou o mal. Há o corrompido e o que ainda está por corromper. Personagens dúbias, filosofia viva, existencialismo cru. São alguns dos ingredientes que se somam à construção do filme.

Moralidade, religiosidade... instinto... prazer versus felicidade. Talvez a grande angústia de Dorian seja exatamente esta: poder comprar tudo, inclusive o prazer, ser dono de beleza eterna... mas ser infeliz. A beleza de algumas coisas está justamente no fato de serem passageiras, diz em algum momento.

Algumas situações apenas insinuadas no livro são escancaradas no filme. As orgias, o sexo fácil, bebedeiras, homossexualismo, busca por redenção... estão ali, diante do público, instigando reflexão. Wilde continua atemporal em sua obra. Assim como Dorian, sua ela segue, atemporal, bela, sendo conhecida/corrompida pouco a pouco. 

Ainda dá tempo de buscar o cinema mais próximo.




quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O Bicho - Manoel Bandeira


Vi ontem um bicho 
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.